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Quimio e Cores

2 thoughts on “Quimio e Cores”

  1. Você chorou, David chorou, e eu chorei.
    Que todos nós possamos encontrar meias coloridas para dias cinzentos.
    💖

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“Você começa a quimio na semana que vem”, disse o médico oncologista com PhD em indiferença. Tinha que ser gringo pra conseguir falar essas palavras sem mover uma única linha das suas expressões faciais. “E se antes da quimio eu tentar um tratamento alternativo, jejum intermitente, essas coisas?” Perguntou David, claramente pulando os estágios da negação e da raiva, e indo direto pra barganha. “Você já perdeu 10kg, você acha mesmo que jejum é uma boa ideia? Além de insensível, o doutor também é cínico. Fomos embora, dirigimos em silêncio. Chegando em casa, choramos. Parecia que estávamos segurando aquele choro durante os 40 minutos que separam o hospital do nosso lar, e chegando em casa, choramos. Ele chorou, eu chorei, choramos juntos, e choramos também separados escondido um do outro, pra tentar se mostrar fortes.

 

Os primeiros dias foram assim, mas daí chegou semana que vem. Era uma sexta-feira e quando estávamos nos arrumando pra ir pro hospital, falei pro David: Que tal colocar aquela sua meia verde? Ele tava vestido de cinza, verde não tinha nada a ver com nada. Mas tinha a ver com tudo. A meia coloridona e estampada tinha sido presente de aniversário que uma amiga deu, 4 meses antes. Ainda com etiqueta, porque quem usa uma meia “cheguei” dessas, no dia a dia? David usou no dia da sua primeira quimio. Ali nasceu um ritual. 5 horas depois saimos do hospital e eu falei “agora precisamos comprar uma meia nova, pra você usar na próxima sessão”. Cansados, ele drenado e só querendo cama, juntamos o que tinha de energia pra passar no shopping e comprar uma meia nova. Aquela meia se tornou uma importante missão, que levamos tão à sério, como se ela representasse uma esperança de dias mais coloridos que estavam por vir.

 

E assim foram os próximos 6 meses, onde o David criou uma coleção de 12 meias coloridas, de todos os tipos que você puder imaginar. Roxa, amarela, com desenho de porquinhos voadores, frases engraçadas e teve até uma especial de natal. A regra era clara: a meia precisava ser comprada logo depois da quimio, antes de ir pra casa, que era pra termos algo legal no dia que nos fizesse aguentar o tempo no hospital. E no hospital as meias fizeram sucesso, viu? David ganhava elogios de todos os enfermeiros, e colocou um sorriso no rosto de alguns outros pacientes que também estavam ali na espera de dias menos cinzentos.

 

Assim seguimos, semana após semana. Porque olhar pra frente e encarar 6 meses de quimio é bem difícil, mas se você pensar que só precisa aguentar uma semana, e depois mais uma semana, e depois mais uma semana… o desafio fica mais diluído. “Você começa a quimio na semana que vem”, disse o médico para outro paciente, no nosso último dia no hospital. Ali começava uma outra história, com seus próprios rituais, enquanto a gente se despedia do hospital agradecidos pelos choros e pelas cores.

 

texto escrito como lição de casa do curso da Ana Holanda.

 

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Amo a vida no detalhe e sou adepta do slow living. Gosto de romantizar a vida, afinal nós somos os roteiristas da nossa própria história.

 

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