O relógio marca 4 da tarde. Descanso minhas mãos roxas de frio na alça da minha mala de rodinha que já esta no limite do peso: 20kg exatos, nem mais, nem menos. Meu trem vai chegar a qualquer momento. Enquanto isso aproveito para absorver com os olhos todos os detalhes que posso da estação de Shibamata, bairro que foi minha casa nas duas últimas semanas. Foram tantos trens que peguei aqui para passear pelos bairros de Tokyo, é difícil acreditar que esse será o último. Esse breve pensamento é o suficiente para me fazer vazarem os olhos. Devo estar com algum problema de encanamento, pois toda vez que lembro que é meu último dia no Japão acontece isso de sair água pelo buraquinho dos olhos. Seco as bochechas com a manga da blusa, que já esta manchada de preto da minha maquiagem borrada. Fecho os olhos e respiro fundo, tão fundo, como se eu quisesse puxar junto com o ar gelado, tudo o que me cerca: os olhinhos puxados, os sorrisos tímidos, a gentileza, a educação, a cortesia, as palavras que não entendo nada, as palavras que arrisco e pronuncio errado, as comidas, o sushi, o ramen, o sake, a sopa de milho, as konbinis, as papelarias, o jazz, as flores de cerejeira e também as azaléias, os templos, os santuários, os budas e todos os deuses de todos os nomes, os prédios, as ruas, os jardins, as montanhas…e os trens. Respiro tudo isso pra dentro de mim e quem sabe se eu prender a respiração por alguns segundos eu consigo guardar o Japão dentro de mim, apenas tempo o suficiente para que essas memórias se tornem tatuagens do lado de dentro da pele. 04:05 marca o relógio quando o meu trem chega, anunciando o destino final: aeroporto de Narita. Espero minha vez na fila pra subir no vagão e depois de me acomodar no assento, me despeço em silêncio pela janela prometendo pra Tokyo que em breve eu volto. Até logo.
texto escrito como lição de casa do curso da Ana Holanda.
