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Professora Emputecida

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Segunda-feira, 7:30 da manhã. Chego no studio com meia hora de antecedência, que é pra arrumar a sala com calma pra receber os alunos. Acendo uma vela cheirosa, aroma de capim limão, minha preferida. Nunca gostei de incenso, mas as velas aromáticas tem o meu coração todinho. Ao invés de acender as luzes principais do teto, ligo apenas as luminárias de luz baixa que ficam nos cantos da sala, que é pra ficar mais aconchegante. Coloco a minha playlist de músicas calminhas. Não sou dessas de dar aula com música indiana hare-krishna, nunca fez meu estilo. Mas um bossa nova instrumental cria o ambiente perfeito, tranquilo com uma dose de brasilidade, que é pras alunas se sentirem em casa. Abro os yoga mats, um por um. São 10 no total, que alinho perfeitamente no chão junto com uma manta branca, caso elas sintam frio durante a meditação. Coloco também uma almofada pra cada, pra ficarem mais confortáveis. Amo demais dar aulas. Preparar tudo com carinho, pensando nos mínimos detalhes, é a minha forma de trazer um abraço pra vida agitada da imigrante que às vezes só precisa de um colo, um momento de respiro.

 

São 7:45, já esta tudo pronto. Abro a porta do studio e volto pra sentar no meu tapete. Ainda tenho um tempo pra eu me aquietar e me ancorar antes da aula. De olhos fechados, respiro. Coloco minhas melhores intenções de dar uma boa aula, e trazer um momentinho de paz pras meninas. Respiro. Meu corpo esta relaxado, já estou pronta.

 

Olho no relógio, 7:55. Cade elas? No email de confirmação que elas receberam estava muito claro pra chegar um pouco antes, pra começarmos no horário. Elas sabem que eu levo a pontualidade bem a sério.

 

7:57. Gente??? Será que ninguém vem? Olho meu celular pra ver se alguém esta perdida com o endereço. Nada.

 

7:59. Não é possível! Falta 1 minuto pra aula começar e ninguém chegou ainda! O coração acelera e tiro meu casaco de tricot. Ainda não comecei a me movimentar, mas sinto um calor subindo na boca do estômago.

 

8 horas, a sala ainda vazia.

 

8:05, chega Vanessa. “Oi profê, bom dia! Tudo bem?”. “Tudo bem querida, mas você esta atrasada”. Penso, mas não falo. “Bom dia Vanessa”. Será que ela vai pedir desculpas pelo atraso? Que nada, começou a contar do fim de semana. É sério que você chegou em cima do laço e ainda quer ficar de papinho?

 

São 8:07 e já era pra estarmos no fim da meditação inicial! Chegam Mariana e Larissa, elas são vizinhas e sempre vem juntas. “Bom dia profê!”, elas me cumprimentam com uma tranquilidade inacreditável. Vocês estão atrasadas e me dando bom dia com essa paz?” “Bom dia meninas”, respondo com um sorriso. Com a pressa de uma tartaruga, elas tiram o tênis… escolhem seu lugar na sala… tomam um gole de água… trocam um comentário banal uma com a outra…

 

Já são 8:10 quando as duas estão sentadas em postura de meditação. Meu sangue já esta fervendo com tanto descaso, mas respiro fundo e recupero as rédeas: Muito bem meninas, vamos começar a prática de hoje, estamos um pouco atrasadas então a meditação será mais curta. Encontrem sua postura confortável, fechem os olhos, e apenas sinta o ar entrando e saind…. “Bom dia teacher!”, sou interrompida pela Fernanda, que chegou 8:12 já falando alto, sem um pingo de consideração pelas meninas que já estavam começando a meditação. Não falo nada, apenas aceno com a cabeça e sigo: “sintam o ar entrando e saindo pelas narinas, de forma natural e tranquila”, falo pra elas e também pra mim mesma, porque a essa altura tudo que eu já tinha me acalmado antes da aula foi pelo ralo. Meu coração pulando dentro do meu peito enquanto tento voltar pro meu eixo à medida que guio a meditação.

 

8:15 chegam mais 4, todas elas segurando um copo de café contendo a risadinha de quem veio conversando da cafeteria até aqui. Então as belas estão atrasadas porque foram buscar um cafézinho antes da aula. Puta falta de comprometimento com o horário. A meditação que era pra ser curta, pra não encurtar o tempo das posturas, se prolonga porque agora eu é que preciso respirar mais um pouco e dar tempo pras bonitas se acentarem. Como é que pode tanto descaso? Eu acordei cedo, cheguei cedo, e agora to eu aqui com o sangue aquecendo e a voz quase tremendo. Respiro, porque to aqui pra transmitir paz.

 

8:20 acabou a meditação quase já na metade da aula. Levanto e tranco a porta do studio. As duas últimas vão ficar pra fora, pra ver se aprendem a não se atrasar da próxima vez. Volto pro meu tapete e começo a sequência que preparei no dia anterior. Entre sobe e desce de braços e pernas, seguimos no flow e chegamos no cachorro olhando pra baixo. Não! Não é possível!!!! A Larissa ta realmente checando o celular enquanto ta na postura??? Do cachorro, ela desce os joelhos ao chão pra poder pegar o celular com as duas mãos e responder uma mensagem. Inacreditável! Chamo a atenção dela? Ou isso vai desconcentrar as outras alunas? Falo com ela no final da aula? Ou só ignoro? Só ignoro, e sigo.

 

8:45, só quero que essa aula acabe. Coloco todas na postura do relaxamento final, que hoje será em silêncio. Estou drenada por todas as palavras e sentimentos que nunca consigo por pra fora. Enquanto elas estão deitadas de olhos fechados, pego meu celular e marco minha próxima sessão de terapia.

 

8:58 conduzo elas pra retornarem do relaxamento e sentarem-se novamente. Meus olhos encontram os delas com um sorriso no rosto. Namaste.

 

texto escrito como lição de casa do curso da Ana Holanda. Baseado em fatos reais, com personagens fictícios. 

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eu sou a Ka! 👋🏻
brasileira morando na Austrália 🇧🇷🇦🇺

 

Sou uma blogueira de verdade, dessas que habitam na internet desde os anos 2000 ish. Lembra quando os blogs eram legais, antes de virarem uma obsessão por SEO ou posts escritos por AI? pois é.

 

Aqui posto sobre as coisas que me dão na telha. Coisinhas do meu dia a dia, viagens, quem sabe até uma receita.

 

Amo a vida no detalhe e sou adepta do slow living. Gosto de romantizar a vida, afinal nós somos os roteiristas da nossa própria história.

 

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